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Mara Santos

Natal em Palavras - Volume II

Natal em Palavras -  Volume II

2019

A bolacha da Laura

O Pai Natal relia a última carta. Laura queria uma bolacha com sabor a chocolate, que desse força mental e física, lesse a mente e ajudasse as pessoas a ver o futuro! Enquanto percorria o Armazém de Desejos Nunca Antes Pedidos, na Lapónia, não encontrava sequer bolachas, quanto mais com tais poderes. Ainda experimentou a sua inovadora Máquina de Ampliar Desenhos das Crianças. Os desenhos dela eram corações... lilases, azuis, verdes e vermelhos... A amplicação deu lindos corações para enfeitar a árvore de Natal mas não eram bolachas! "Se ao menos as crianças de hoje tivessem desejos normais", pensou. Todos os Natais encontrava ali alguns presentes previamente idealizados pelos seus duendes futuristas mas as crianças surpreendiam cada vez mais.
Chamou-os e disse-lhes:
- A vossa função é nunca deixar o Pai Natal desprevenido. Era suposto terem adivinhado os desejos destas crianças e já termos tudo pronto para os satisfazer! Não o fizeram e agora nem sei se o conseguem!  Vejam bem esta carta! 
Eles leram e entreolharam-se com ar de espanto!
- Ela quer ver o futuro? 
- Sim! E ler a mente! Como vamos fazer essa bolacha? Têm até amanhã de manhã para me arranjarem a solução!
Os duendes saíram apressados em direcção à fábrica de doces. Iam procurar a melhor receita... Pelo caminho lembravam que o chocolate é um dos alimentos mais saudaveis... desde que seja rico em cacau. A bolacha seria de chocolate preto e isso daria força com certeza! E seria em forma de coração, como os desenhos... O díficil era o resto... 
- Ler a mente das pessoas? 
- Todas as pessoas pensam... que o Natal é a altura de receber presentes. 
- E o futuro? 
- O futuro é... perceberem que o Natal é a celebração do nascimento de Jesus Cristo, o Salvador!
- Mas nesse dia deixam de nos escrever cartas... E o Pai Natal não precisa de nós!
- Nem sequer as renas dão a volta ao mundo!
- E...  
- Não podemos deixar que a Laura veja isto! - disseram em uníssono.
A manhã chegou e o Pai Natal aproximou-se:
- Conseguiram fazer a bolacha?
Os duendes ficaram atrapalhados.
- Depois de todos estes anos a conseguir prever os desejos das crianças, este ano nem sequer os conseguem satisfazer mesmo sabendo quais são? Já não servem para me ajudar! - replicou ele, desiludido.
- Calma - respondeu um - conseguir, conseguimos... nós não gostamos é do futuro que ela vai ver...
- Que futuro vai ela ver?
- Vai ver que o Natal é mais que os presentes... É a celebração do nascimento de Jesus Cristo, o Salvador... vai perceber que o regresso está próximo e vai dar a bolacha a outros... No próximo ano ninguém nos escreve... e as nossas fábricas fecharão! Viveremos num mundo em que é Natal todos os dias e o que dá força é partilhar corações, de preferência com sabor a chocolate!
O Pai Natal riu:
- Mas isso é optimo, preciso reformar-me! 
Na noite de Natal espreitou Laura a desembrulhar a bolacha e voltou à Lapónia no seu trenó... pela última vez!
 

Excerto lido por Paula Luiz, sessão de lançamento, Pestana Palace - Lisboa, 14 de Dezembro de 2019

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